domingo, 7 de junho de 2009

Desconhecimento, falta de argumentação e um claro elitismo marcam debate

Após ter participado ativamente do 7º SENAED – Seminário Nacional de Educação a Distância, que aconteceu entre 23 e 31 de maio, me senti levada a assistir o MTV Debate, que foi ao ar no 03.06, onde o tema era: O Ensino a distância é eficaz?

A discussão sobre a Modalidade no Brasil vem crescendo a ponto do Jornal Nacional ter desenvolvido uma semana de matérias de quase 10 minutos (esse tempo na Rede Globo de televisão é algo que em comunicação poderíamos dizer que é file Mignon, algo que não tem preço) no final do mês de abril.

De acordo com matérias publicadas em diversos jornais e no próprio site da SEED – Secretaria Nacional de Educação a Distância - O número de alunos que freqüentam cursos a distância no Brasil cresce ano a ano,no inicio de 2006 atingia 1,2 milhão de alunos, um crescimento de mais de 60% em relação ao ano anterior

Sou jornalista, professora da Universidade Aberta do Brasil pela Universidade Federal de São Carlos e professora, universitária no presencial em uma Universidade da Capital paulistana, além de ser doutoranda em Educação:Currículo e ter desenvolvido inúmeros trabalhos de formação e desenvolvimento de curso para EAD e de ter participado da organização do I WEBCURRICULO, seminário desenvolvido em 2008, pela PUCSP que visava discutir a Integração das tecnologias ao currículo. Tenho que dizer aos colegas leitores que fiquei surpresa ao ver os caminhos tomado por esse debate que teve a mediação do cantor Lobão.

A proposta da forma do debate visa mostrar um grupo contra e outro a favor do tema...viva Nelson Rodrigues que afirmava que toda a unanimidade é burra...

Toda discussão fundamentada e pautada em argumentos factíveis e sustentáveis é saudável afinal toda tese precisa de uma antítese para chegarmos a uma síntese.

Mas foi tristeza, sem exagero, que me consumiu se transformando depois em um misto de indignação e pesar. Ao ver, por exemplo, a aluna Julia Almeida do diretório central dos estudantes da USP, apresentando uma proposta elitista de educação onde só alunos como ela, que estão tendo a oportunidade de cursar uma das melhores Universidades do Brasil tem o direito a Educação, em sua apologia contra a criação da UNIVESP ( Universidade Virtual do estado de São Paulo). Gostaria muito que a Julia e todos os demais alunos que levantam essa bandeira contrária a criação de oportunidades de ensino aos brasileiros tivesse a oportunidade de ter ouvido, como ouvi certa vez de uma aluna do pólo de Apiaí que me dizia que estava fazendo pedagogia, pois iria trabalhar em uma escola rural para alfabetizar filhos de colonos, realidade esta que a Julia e os amigos que fazem cursos, como letras na USP não sabem sequer que existe, ou apenas viram em livros, esses profissionais formados na USP, com exceções é claro, não pensam em sair da comodidade da metrópole para desbravar os rincões, mas tem um discurso “démodé” que fala do imperialismo que domina a nossa sociedade urghhhhhh...precisamos acima de tudo parar de vomitar conceitos sem fundamentos e conhecer a sociedade e a história...chavões não dá para ser aceito de pessoas que estão tendo esse ensino de qualidade graças ao suor do trabalho da aluna que sonha e dar uma oportunidade ao aluno da escola rural ( o imposto vem do conjunto mas a educação gratuita era para a minoria)

A coisa não parou por ai, tivemos a participação, que eu classificaria como lamentável, de Ciro Correia representante do sindicato dos docentes do ensino superior. Como professora de ensino superior tenho muitas reivindicações no sentido de melhorar a EDUCAÇÃO do nosso país, seja ela presencial ou a distância, o que devemos buscar são melhores condições de trabalho, formação continuada, incentivo a pesquisa e desenvolvimento de projetos para o crescimento do país. É um esforço conjunto para o crescimento do nosso país.

Temos que quebrar esse entendimento de que existe um ensino presencial e uma a distância para pensar que temos o ENSINO e que esse precisa ser de qualidade.

Acredito que o Ciro deveria estudar um pouco mais sobre o assunto antes de dizer coisas como em EAD não há interatividade...na UFSCAR temos sala de 25 alunos que interagem por chats, fóruns, videoconferência etc já cheguei a ter 100 alunos em uma sala presencial onde ao final de 15 semanas eu não sabia sequer o nome daqueles que sentavam nas 4 primeiras filas de 20.

Para não me estender mais, seria importante criarmos novos debates mas que as pessoas chamadas para debater apresentassem argumentos factuais e sustentáveis de suas posturas e não apenas um achismo e um pré conceito. Para atender a postura do jornalismo ético, afinal o cachimbo acaba entortando a boca, estavam presentes ao debate mais quatro participantes que apresentaram também as suas posturas. Destaquei esse por terem sido os mais gritantes em uma postura destemperada e sem sustentação.

Chamo você a discutir comigo esse tema.

10 comentários:

Renata Aquino disse...

O pior é que esse elitismo do DCE vem disfarçado de democratização da universidade, exatamente o que iniciativas em EAD como a Univesp fazem! Mais uma vez o privilegiado aluno da USP vira um joguete político e todo mundo sai perdendo, lamentável.

Nanda disse...

Em muitos casos, infelizmente, DCEs e Sindicatos são "do contra" naturalmente, sem saber nem contra o quê estão brigando.
E isso só impede que discussões construtivas e inteligentes sejam realizadas.

gimptress disse...

Eu não vi esse debate, mas se zapeasse por ele com certeza nem pararia pra ver hehehe :)
Eu gostaria de citar aqui uma frase que li no website de EaD http://edufire.com/ "Educação não é encher um balde, e sim acender um fogo". Eu tive acesso a boas escolas e mesmo assim não suportava sala de aula, acho que muita gente larga a escola por causa disso também. Acho que EaD vai possibilitar uma especialização muito maior das pessoas adequando o Currículo a personalidade de cada um, porque não precisamos ir todo dia lá na pqp passar a aula todinha mexendo no celular pra matar o tempo enquanto não imprimem o diploma da gente :P
Fora da escola, o que importa mesmo é lei e preço. O profissional tem que trabalhar bem com seu tempo pra oferecer bom custo/benefício e tem que conhecer bem as leis que regulamentam seu ofício, pagar o conselho profissional todo ano, ter responsabilidade no seu trabalho.
Essa menina que a gente tá jogando pedra nela hehe se deu um belo de um tiro no pé porque no futuro ela vai ganhar mais dinheiro se trabalhar com EaD também.

B disse...

Gostaria de ver esses alunos elitistas fazendo uma provinha do CEDERJ, poderia ser a mais simples...

Francisco disse...

É triste que numa faculdade de ponta, estudantes e dirigentes dos professores julguem um objeto "à priori" sem o minimo de critérios analíticos.
A questão não é ser contra ou a favor da EAD, mas observa-la com toda criticidade, para propor parametros e regras para que exista qualidade no ensino.

Mario Luis tavares Ferreira disse...

Olá Monica,

Não é fácil!!!

Quando ouvimos colocações contra o EAD, feitas por alguns docentes, ainda podemos entender a dificuldade que algumas pessoas têm em se aperceber que o mundo mudou. Elas têm medo de mudar seu status quo, têm medo do que não conhecem, ou vislumbram, e são afoitas a qualquer coisa "que dê trabalho" além do que "são pagas para fazer" (é o acomodado, esperando aposentadoria...), ou são completamente alienadas no que se passa com as novas tecnologias e o que as maiores, e mais bem quistas, universidades do mundo já estão desenvolvendo há décadas, que é o EAD e a disponibilização do conhecimento on-line.

Agora, uma colocação dessas, vinda de uma jovem, o problema é muito mais sério!!!

Isso mostra uma manipulação de sua percepção, visão e princípios. Por quem? É uma pergunta fundamental a ser respondida.
Quem fez essa lavagem cerebral, na jovem?

Ela, certamente, utiliza a Web 2.0 (orkuts, messengers, e-mails, facebooks, flickrs, etc.) não é possível que, em sã consciência, ela não tenha observado que tudo mudou, comunicação mudou, informação mudou e acesso ao conhecimento mudou.

Como o ensino não pode ou não deve mudar?

Isto, além da obrigação de dar a oportunidade a todos, de ter acesso ao ensino de qualidade e em qualquer lugar.

Quanto ao EAD: Sim, sim o EAD vem de longa data.

Em 1972 quando mudei com meus Pais, para o Brasil, uma das empresas (foram duas), que eles montaram, foi de cursos por correspondência baseado em material de uma multinacional francesa, que já atuava no ramo em meia dúzia de países. Chamava-se IBED, Instituto Brasileiro de Ensino à Distância.

Tendo, em jovem, acompanhado esse "desenvolvimento", sempre acreditei no trabalho sério que podia ser feito com EAD.

Já mais “mocinho”, fiz várias extensões (pós) pela FGV on-line, e fiz um MBA, meio on-line, meio presencial, e não tenho a menor dúvida que esse é o futuro.

Fora isso, já tinha estudado várias outras possibilidades, como London Business School, Heriot Watt, American University, etc…
Inclusive softwares para tal, como, por exemplo, o Moodle e metodologias (e padronizações) como o SCORM.

Para terminar, que esta história, já está longa, deparei com:
1) A falta de credibilidade que EAD tem, quando comentamos que estudou por EAD, já se torna depreciativo.
2) Os professores de universidades “físicas”, têm medo de que seu “status quo” mude (feeling pessoal), o que não deixa de ser normal (sair da zona de conforto é difícil para qualquer um…).
3) O próprio governo, só agora, está “vendo” e incentivando o EAD, depois de décadas de obstrução a qualquer iniciativa (mais uma vez acredito que foi o corporativismo dos professores que segurou muito…
4) Ainda existe o perfil do “levar vantagem em tudo”, por isso um comentário que li on-line, em algum blog: "professor que finge ensinar e aluno que finge apreender só para ter o diploma." (falta de controle sério, ético e honesto).

Mas é o futuro (e eu aposto nele) e o modo de diminuir as desigualdades sociais e economicas, localmente, regionalmente e globalmente, sem sombra de dúvida.

Grato por seu tempo e atenção.

Atenciosamente,
Mario Luis Tavares Ferreira

PS:
1) Recentemente, acabei de me oferecer como voluntário para doar parte do meu tempo para a Universidade do Povo (grátis), como tutor, professor, autor de material, etc, iniciativa com suporte da ONU, e que tem o endereço: http://www.uopeople.org/

2) Vi no seu Lattes que têm uma especialização em EAD, eu estou procurando uma on-line, por um acaso sabe onde posso encontrar?
Já vi uma na PUC-RS, outra na PUC MG, mas não são especificamente sobre EAD. Na realidade, eu estava procurando um mestrado em EAD, mas acredito que não tem nenhum on-line, logo, estou "topando" mais uma especialização...

Julci Rocha disse...

Pessoal,

Pesquisando sobre a greve na USP, encontrei um blog criado pelo DCE da USP que visa discutir a UNIVESP.

Ainda não li muito para opinar. Portanto, fica aqui a sugestão aos colegas

Abraços

Julci Rocha

http://www.univesp.blogspot.com/

Mario Luis tavares Ferreira disse...

Julci,

Fui olhar o blog e logo o primeiro post é sobre um documento da ADUSP sobre a questão do EAD:

Os "achismos" (sem referências ou base nenhuma) tratados:

Alega-se que não há recursos para a educação superior presencial e que, portanto, é preciso implantar o EàD
As pessoas não têm acesso à educação presencial, portanto, é necessário implantar o EàD
Limitações de cunho educacional do EàD
Outras limitações do EàD
Ambiente adequado aos estudos
EàD não pode substituir o ensino presencial
Professor “formado” por EàD poderá comprometer duas gerações
O Brasil tem capacidade de expandir o ensino presencial
O sucesso pode esconder o fracasso
Moradia não é bom local de estudo
EàD e recursos tecnológicos
Será que o EàD é recomendável?
Incluir os excluídos

E, agora, abaixo, trechos de recente reportagem da agência estado:

Na USP toda são 104 mil pessoas, entre estudantes, professores e funcionários. Na quinta-feira, o equivalente a 1% desse total, segundo a PM, estava na Avenida Paulista para defender a greve, que começou no dia 5 de maio com o sindicato dos funcionários. Na mesma tarde, no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas, por exemplo, alunos saíam de aulas e estudavam para as provas finais.

"Acho que os grevistas querem voltar a uma época que não existe mais. Todo ano é a mesma coisa", dizia a estudante de Geofísica Natália Costa, de 20 anos, que tinha acabado de assistir a uma aula no Instituto de Física. "Eles deviam pensar em protestos mais inteligentes, sem violência." Na terça-feira, Carlos Magno, do Sindicato dos Funcionários da USP, havia qualificado os piquetes como "arma histórica dos trabalhadores".

No estacionamento da Escola Politécnica, por volta das 11h30 de quarta-feira, véspera do protesto na Paulista, era difícil achar lugar para estacionar o carro. Os calouros Heitor Reis, Leonardo Kakitani e Felipe Romano preparavam uma maquete. "Lá na FFLCH eles têm as disciplinas greve 1, greve 2, greve 3", brinca Felipe, demonstrando a antiga rivalidade entre Poli e Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

http://educacao.uol.com.br/ultnot/2009/06/21/ult4528u719.jhtm

Mais uma vez, esse pessoal precisa se atualizar... (o que será da cabeça dos alunos, em formação, quando orientados pelos indivíduos que escreveram o documento acima???

mmandaji disse...

Caros Amigos
Realmente, lendo os posts enviados por vocês a gente acaba percebendo o quanto tem crescido o espaço para a Educação a Distância no Brasil, mesmo que tardiamente em relação a outros países, e o quanto isso é importante para levar a possibilidade de ensino a lugares longinquos e mesmo como opção as pessoas que querem criar a sua própria rotina.
Me preocupa muito a posição da USP,fui aluna da pós na ECA e lá existia como disse o Mario, um movimento até certo ponto destrutivo entre os docente pela manutenção do status quo...
Precisamos romper os paradigmas e olhar para as novas possibilidades. Na verdade é importante lutar sim pela Educação, pela qualidade de ensino, pela acessibilidade, pela igualdade de direitos...e não mais bricar pela manutenção do status...não dá para continuar reproduzindo a relação de casa Grande e Senzala, não é mesmo?
Mário quanto aos cursos de formação em EAD a ABED tem uma relação e também vai estar promovendo em breve o certificação na área. Vale a pena dar uma olhadinha...
Abraços
Mônica

miriam disse...

O pessoal que estuda nas grandes universidades do país se acham, desconhecem que no nosso país há muita desigualdade,pobreza extrema e distâncias inimagináveis.
A EAD veio para atender aos mais longínquos rincões do país e proporcionar às pessoas que "queiram estudar" a concretização de um sonho que é fazer um curso superior e com ele melhorar as comunidades onde moram.